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Boletim de Histórias - número 20 Índice 1. Introdução:
Mulher Indígena
1. Introdução: Mulher Indígena
Certa vez o sertanista Orlando Villas Boas foi aprisionado pelos índios Kayapó. Era a época dos primeiros contatos entre estes índios e os civilizados. Os Kayapó eram considerados guerreiros ferozes e temidos por toda a extensão do rio Xingu. Orlando Villas Boas estava em uma aldeia deles, cercado por dezenas de homens pintados para a guerra, ansiosos por derramar sangue e que já haviam decidido matar aquele estranho homem branco. Orlando Villas Boas viu uma velha Kayapó e gritou por socorro. A mulher se aproximou do grupo de guerreiros e todos silenciaram. Ela mandou que os homens soltassem o homem branco e, junto com outras mulheres, escoltou Orlando até o barco para que ele pudesse ir embora sem ser molestado. É difícil para a sociedade dos civilizados, entender que uma guarnição militar inteira possa reverter uma decisão por causa das palavras de uma mulher. Seria considerado um fato raro. Esta história serve para ilustrar a complexidade do papel que as mulheres indígenas exercem em suas comunidades. Este boletim da Iandé traz algumas histórias onde as mulheres são personagens principais.
2. Iamuricumá: a Festa das Mulheres
Os índios Kamayurá, do Parque do Xingu, contam que antigamente havia a aldeia das Iamuricumá. Um dia os homens desta aldeia saíram para pescar e demoraram muito para voltar. Passou uma lua até que um jovem foi ver o que tinha acontecido. Ele descobriu que os homens estavam se transformando em bichos. Alguns viraram porcos e outros bichos do mato. O jovem voltou à sua aldeia e contou o caso para sua mãe. Ela reuniu todas as mulheres e decidiram deixar aquele local, antes que seus maridos retornassem. As mulheres vestiram os enfeites que só os homens podiam usar e pintaram-se como eles. Algumas mulheres começaram a cantar e foram subindo, subindo até alcançarem o teto de suas casas. Lá ficaram cantando e dançando por dois dias. As mulheres passaram um veneno no corpo e se transformaram em espíritos. Por isso é que até hoje, no local onde vivem as Iamuricumá, não se pode tirar raiz, planta ou caçar; ou o índio enlouquece e desaparece para sempre. As mulheres agarraram um velho, colocaram duas pás de fazer beiju no lugar das mãos dele e o transformaram em tatu. O velho disse: "Agora não sou mais gente. Sou tatu", e começou a cavar um túnel. As mulheres o seguiram. As mulheres das outras aldeias em que as Iamuricumá passavam, resoviam se juntar ao grupo e continuavam viajando, viajando sempre. Até hoje elas caminham, sempre enfeitadas e cantando. Nas aldeias do Alto Xingu, as mulheres fazem festa para as Iamuricumá até os dias atuais. Nos dias da festa os homens têm que obedecer a todas as vontades das mulheres.
Para saber mais:
3. Colares Femininos, dos índios Krahò
Os índios Krahò vivem no norte do estado do Tocantins. Há um colar tradicional deste povo que é utilizado somente pelas índias jovens. A seguir estão alguns destes colares, recolhidos entre 2003 e 2007:
4. Influência Política
A participação das mulheres indígenas nas decisões políticas de suas aldeias varia muito entre as diferentes etnias que vivem no Brasil. Em algumas aldeias há mulheres que ocupam os postos mais altos de liderança em suas comunidades, ou posições em que suas opiniões são muito respeitadas. Isto tem acontecido cada vez com mais frequência entre os grupos indígenas. Existem importantes lideranças femininas entre os índios Tupinambá de Olivença, Yawanawa, Xukuru-Kariri, Tupiniquim, entre outros. O aumento da participação política das mulheres entre os índios é atestado também pelo número crescente de associações de mulheres indígenas que vêm surgindo e trabalhando nas mais diversas situações. O GRUMIN (Grupo Mulher-Educação Indígena) é um dos pioneiros. Atua há 25 anos, de forma cada vez mais intensa, na divulgação da cultura indígena, no combate ao preconceito e na denúncia de violações de direitos humanos. Em outras etnias indígenas porém, a participação política da mulher não é tão intensa. Em algumas aldeias, as decisões da comunidade são tomadas somente por homens, em locais onde o acesso das mulheres é até proibido. Antes de acusar estes grupos indígenas de "porcos chauvinistas", convém refletir sobre uma questão levantada pela escritora e poetisa indígena Eliane Potiguara, fundadora e coordenadora do GRUMIN. Ela aponta que as etnias indígenas vivem em estado de guerra permanente desde a chegada dos europeus ao continente. São séculos suportando invasões de suas terras, mortes por doenças e violência, preconceito, abuso sexual, etc... e as estratégias que os índios escolheram para a proteção de seus grupos, mulheres e crianças; podem ter levado a uma situação de machismo. As mulheres foram retiradas da linha de frente destas sociedades e "escondidas", pois os índios consideram que as mulheres são importantes depositárias da herança cultural indígena e responsáveis pela continuidade de cada etnia. Os índios Kayapó, que vivem no Pará e Mato Grosso, são um destes grupos em que as decisões são tomadas pelos homens, dentro de uma casa no centro da aldeia, proibida às mulheres. Alguns antropólogos registraram porém, que os índios combinam uma coisa nesta casa dos homens e cada um volta a seu próprio lar para contar à sua esposa. As mulheres se comunicam e aprovam ou rejeitam a decisão dos homens. No dia seguinte os maridos retornam à casa central onde confirmam a decisão do dia anterior ou decidem "discutir" melhor o assunto. Este procedimento também já foi descrito em aldeias de outras etnias indígenas. Para os que desejarem saber mais sobre o papel das mulheres indígenas, vale MUITO à pena ler uma conversa entre as antropólogas Carmen Junqueira e Betty Mindlin publicada na Revista de Estudos Avançados da USP. Duas mulheres de extraordinária sensibilidade que testemunharam um punhado de histórias do universo feminino de algumas etnias indígenas. O texto está disponível no endereço http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142003000300014&script=sci_arttext
Para saber
mais:
5. Atualizações no site Iandé
A-) Foram acrescentadas duas cerâmicas do Vale do Jequitinhonha, de Alvina Teixeira, no Museu Iandé: |
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Iandé
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